sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Santificação

Avise a todos:

Minha santificação, uma vez por semana
"aos sábados, a partir das 11h"
sim?
Prepara o almoço e os cálices, santifiquei-me!

Queria eu me santificar
todos os dias  das semana
mas a vida também não é santa!
Não posso não ser? (Não posso não)
"A vida não nos magoa de propósito", Schopenhauer
e é mesmo
mas que me importa? nada

Muito fácil sair da igreja e ser santo
mais uma ou duas horas,
que tem?
Prepara o meu manto,
sim?

Para nadie

Incrível como dois e dois
as coisas clareiam na escuridão absoluta e no penar sincero do meu coração partido. Daqui vejo a baía iluminada pelas lanternas da cidade, as estrelas, os pobres, os ricos, os desenganados e os desiludidos. E eu não sou ninguém, nunca fui (mas enxergo). Faço uma prece, choro. Rabisco no uniforme do comandante palavras inúteis e choro. Choro de pequenez e choro por pertencer, insignificantemente balançando nas ondas do Atlântico; só eu e Deus sob as estrelas frias e as mensagens de perdão. Choro.


Choro, choro, choro.
Mais.

Sob nenhum teto e numa folha quadriculada somo os x aos y da minha vida, choro de agradecimento. Choro sem lágrimas e muitas vezes sem tristeza. Choro de nervoso e de cansaço. A cabeça, roque-roque, mas as ondas chiam, chuam, choram também las ondas del mar.

Lloran las ondas como en mi cabina, penso.
También pensan las ondas en mi cabina.
También lloran en el mar los pensamientos de Dios.
Solo no lloran los embriagados debajo de sus tetos y casas,
solo no los importa nada cuando el alcohol los consuma.

Bonanza

Hoje o mar acordou tão calmo
de todas as coisas que você disse e não cumpriu

E hoje o mar tão calmo acordou
mesmo com todos os sonhos embrenhados na âncora

Hoje o mar acordou tão sereno
e as lembranças do seu mal fazer estão guardadas nas beiras das praias, com as algas mortas
e as lembranças do seu bem fazer são grãos de areia nas almofadas das ostras (escondidas)

Hoje o mar descansa exaurido
pois o mar já amou demais

Sem título

No anel que é o meu corpo penduro suas mãos que são vaidade. No pescoço que é o meu corpo penduro seus dedos que sentem vontade. Nos pés que são o meu corpo aplico vidrilhos que são seu orgulho, e piso no chão. No pomar que é o meu corpo represento Tarsila que é sagacidade. No ar que tem meus pulmões pulverizo o veneno do seu hálito doce e febril. No epitáfio do meu corpo morto transcrevo sua repetida e sem valor poesia. Esconde o seu amor! Esconde as velas debaixo da cama, mas põe fogo. Desde antes já tudo queimar, deixa acabar esta disritmia. Vou dormir.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Maria Mole

Se não tem comida, Maria não come não
Se não tem Sol, Maria não levanta da cama não
Se não é de seu gosto, Maria Mole torce o nariz,
só faz o que quer, maria mimada

Maria Mole e seu herói Macunaíma bocejam, gracejam
"Ai que preguiça!"
Ai Maria, levanta!
Levanta nada, maria folgada.

Maria Mole
Menina Mole Maria
"Parece uma gata gorda"
Mainha perde as estribeiras
pega a chinela, braveja
"Ai mainha, já vôooo", vai resmungando...

sábado, 15 de novembro de 2014

causa mortis

"Rápido, por aqui!"
o poeta está morto
o poeta e a pena na mão
o poeta e a palavra na mordaça

"Depressa, socorram-no!"
o poeta está morto
o poeta morto pela palavra
o poeta e pena no morto coração

"Pelos corredores!"
o poeta está morto
a poesia do poeta o matou
morreu o poeta de poesia

"Pronto!"
o poeta está morto
pombas, como lhe doem as mãos
o poeta foi morto pelo pensamento

"Oh! Senhor!"
o poeta está morto
lhe doem as costas
desconcernem-lhe as palavras

o poeta morreu de poesia que pena a pena na pobre poesia de suas pobres mãos o poeta está morto poesia machuca poesia mata a todos os poetas

terça-feira, 11 de novembro de 2014

contei ao meu coração:

ô coração, o quarto é azul, e é?
ô coração, nesse quarto a cama anda, e é?
ô coração, a luz que entra pela frestinha da janela:
ilumina toda a minha vida, ilumina é? uhum
e o menino? pessoal demais coração, você se aguente e não se mete, eu disse.
Se aguentou foi nada, tá lá jogado nos pés da cama, nos pés do menino, e tô. 

Tome tento, rapaz



Vinicius de Moraes

"sem ela não pode ser!"
e não é que foi, seu Vinitios?
e foi bem 
vai, felipe, fala!
fala nada
falar o que
fala!
falar o que
fala!
fala nada felipe
felipe não fala
felipe diz que não fala nada
ah felipe, ah felipe!
fala! não fala não
mas felipe farfalha como folha
no folhear das minhas folhas faz florescer
felipe floresce sem ser flor
ah felipe, ah felipe!
felipe falha em suas falhas
ah felipe, que fornalha fizeste de mim
que fogo fizeste, que fantasia fomentara
ah felipe, ah!

miudeza

e lá vou eu falar
de miudezas, migalhas e misérias

meu ex-querer mendigo medigava
e só me resta a palavra
(que ele nem vai ler, acabou a piedade
por detrás dos óculos e olhos de gatinho)

ô e eu que pensava
que será de mim
enxerguei que o ela é bem mais querido
com letra maiúscula

não sou mais ela pra alguém
alguém me trata por ELA

"Navega, Marina!"

A minha querida amiga, em conselho grito:

"Navega, Marina!"
Marina navega

desgovernada em suas confusões
 e sonhos lilás cor de infinito
lindas as cores da colcha de Marina, lindas!
delicadeza impaciente, os remos tocam no mar
e a minha querida amiga, em conselho grito:

"Navega, Marina!"
e Marina navega sim

como o timoneiro que deixa o mar levar ela o mar leva
e leva bem sim, enxerga Marina, você leva sim o seu navio
Leva sim!

Vê com os olhos de ver, Marina! Limpa as lágrimas!
Não, Marina, não é ordenando não
Marina resmunga do mar, que é seu,
como queria tomar as rédeas da sua vida
Marina do céu, as rédeas na tua mão, querida, aperta bem!

ô Senhor, dá olhos de ver a menina,
"Navega, Marina!"
e ela vai indo mas nõ vê quão longe foi
não vive só de olhar pra baixo, menina!
(a gente aqui que te ama espera no porto,
olha só como o mundo é seu)

Não consegui te acompanhar

Vem o vento num sussurro de lembrança e diz:
"Não consegui te acompanhar."

A vida se arrasta com as semanas
e a lembrança do vento sussurra vem e diz:
"Não consegui te acompanhar."

Não éramos nada mas a estante do quarto acima da cama
dizia já de início em uma frase intrigante:
"Não consegui te acompanhar."

E a frase me bate com as palavras, me carrega junto de minhas pessoas:
"Não consegui te acompanhar."

Quando elas não conseguem, dói
Se não consigo, dói mais
"Não me deixa, por favor me acompanha", o universo grita
GRITA

Não consegui

Casacos e chapéus

As pessoas entram na sua casa.

As vezes as convidamos, as vezes entram devagar, se infiltrando,
alguns não são bem vindos em primeira instância,
nos acostumamos com sua presença
passa a ser agradável.

Penduram seus casacos e chapéus no mancebo perto da porta,
sentam-se a mesa, no canto da sala, perto das cortinas, discretamente,
nos afeiçoamos a ela.

Horas de conversa, silêncios trocados e
a afeição, o carinho.

As pessoas não podem ficar pra sempre.

Levantam, vão embora.
Deixam o cheiro do perfume, sutil.
A lembrança de um toque.
Um sorriso...

Levantam, vão embora, voltam algumas vezes.
A afeição sempre fica com as fotografias.

Levantam, vão embora pra sempre.
As odiamos por se fazerem tão presentes
"Como pôde esvaziar a casa assim?"

Inútil tentar apagar sua presença,
limpamos o rastro, o perfume, as fotos e as lembranças,
estamos prontos para sair,
mas no mancebo perto da porta...

Ah! O casaco, o chapéu!
(e mais uma noite de choro)